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DUARDOS DE BRETANHA (PALMEIRIM III-IV)

DUARDOS DE BRETANHA (PALMEIRIM III-IV)

AUTOR

DIOGO FERNANDES

BIOGRAFIA

Deste autor só se sabe que era natural de Lisboa. Ao ser um nome muito comum na época, é mesmo muito difícil saber quem se achava após este escritor. 

EDIÇÕES

PI III-IV. Lisboa, Marcos Borges, 1587

ANO EDIÇÃO

1587

EDITOR

Marcos Borges. 

Foi impressor do rei D. Sebastião. A sua actividade desenvolveu-se em Lisboa entre 1565 e 1587.

PARATEXTOS FRONTISPÍCIO

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III PARTE

Dom Duardos de Bretanha.

Terceira Parte da Crónica de Palmeirim de Inglaterra, na qual se tratam as
grandes cavalarias de seu filho, o príncipe dom Duardos Segundo, e dos
mais príncipes e cavaleiros que na Ilha Deleitosa se criaram.

Composto por Diogo Fernandez, vezinho de Lisboa.
Impressa com licença.
À custa de Afonso Fernandez, livreiro que tem logea defronte da Misericórdia, e de Vasco da Silva, mercador. Ano 1587.

Com privilégio real.

 

IV PARTE

Dom Duardos II.

Quarta Parte da Crónica de Palmeirim de Inglaterra, onde se contam os feitos do valeroso príncipe, o Segundo dom Duardos, seu filho, e dos famosos príncipes Vasperaldo, Primalião e Laudimante, e de outros grandes cavaleiros de seu temV PARTEpo.

PARATEXTOS PRÓLOGOS

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[{2r}] Prólogo dirigido ao muito ilustre senhor Pero d´Alcaçova Carneiro, Conde da Idanha, do Conselho do Estado de Sua Magestade e Vedor de sua fazenda.

 

Há tanto que se deseja a Segunda Parte de Palmeirim de Inglaterra por quão bem a primeira tem parecido aos que a leram, que ainda que o risco que se corria nisso era para mim muito grande, assi pela empresa ser em si dificultosa como por ficar subjecta a muitos falarem dela, quis todavia furtar o corpo ao receo, e alimpando como pude a que dela tinha composta, pareceo-me agravo que aos curiosos se fazia não procurar comunicar-lha. E se alguém houver, porventura, com quem as cousas desta sorte estejam em mao foro, por não ser afeiçoado as que são fabulosas, folgaria que lhe lembrasse que o intento de quem as faz não é acreditar fábulas que todos tem por essas, mas é por meo delas descobrir os caminhos por onde os merecimentos custumam alcançar-se, antes assi como os espelhos, segundo Séneca dizia, se não inventaram pera mais que pera cada um vendo-se neles aprender o decoro que lhe convinha, assi o fim principal de histórias semelhantes, é pôr diante de todos lustrosos exemplos de principes e cavaleiros pera que nos sucessos de maos e viciosos enxerguem os desse toque, o perigo de seus vícios e na bruteza deles se desafeçoem, e pelo contrairo, nos bons e bem criados aprendam os que o forem os degráos gloriosos por onde se sobe ao mais perfeito e reconheçam os postos onde as obras justas se abalizam.
E não é inconveniente meter algũas vezes amores profanos e encantamentos mágicos, porque se em os arraiais dos imigos se não pode andar senão disfraçado, mal poderá a virtude, que na terra tem tantos, passar segura entr´eles, se desta maneira a não embuçarmos, que esta foi a causa porque os antigos filósofos, ora em versos numerosos, ora em prosa, em suas ficções nos deixaram escondidos os preceitos e exemplos dos bons custumes, como depois de Homero fez Platão nos Diálogos, Pitágoras nos Símbolos, e Xenofonte no seu Ciro, e após eles os outros, cujos escritos inda temo. E ainda em nossos tempos foram por este caminho aqueles raros espritos ambos os Tassos e Ariosto, a quem todos os mais com tanto estudo imitam.
Não pretendo nisto favorecer deshonestidades que em os livros de cavalarias se poderão achar, antes trabalhei tudo o que pude por alimpar este meu delas. Mais razões haveria pera mostrar esta verdade, mas a que a mim me basta é saber que Vossa Ilustríssima Senhoria está nisto da minha banda e como quem nele pera tudo tem tão grande emparo, pouco ânimo será temer as língoas dos maldizentes, que se a sombra dos freixos, como os naturais escrevem, defende das serpentes quem se acolhe a ela, se alguém for tão ousado que cuide com a sua perjudicar-me, assaz de sombras tenho nas grandes partes de Vossa Ilustríssima Senhoria, pera debaixo delas viver sempre seguro. E conforme a isto, não deve de parecer sobejo atrevimento querer oferecer-lhe esta pequena mostra de meus desejos, que como tem as raízes na minha pouca possibilidade, não podem mais brotar que estes serviços tão pequenos.

PARATEXTOS PRIVILÉGIOS

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[{2v}] Eu, El-Rei, faço saber aos que este alvará virem que eu hei por bem e me praz, por fazer mercê a Diogo Fernandez, morador nesta cidade de Lisboa, que por tempo de dez anos, que começarão da feitura deste, imprimidor nem livreyro, nem outra pessoa algũa de qualquer calidade que seja, não possa imprimir nem vender nestes reinos e senhorios de Portugal, nem trazer de fora deles o livro que o dito Diogo Fernandez compôs, que se intitula Terceira e Quarta parte de Palmeirim de Inglaterra, salvo aqueles livreiros e pessoas que pera isso tiverem seu poder e licença, e qualquer imprimidor e livreiro ou pessoa que imprimir, ou vender o dito livro, ou de fora destes reinos trouxer impresso sem licença do dito Diogo Fernandez, perderá pera ele todos os volumes que lhe forem achados, e, além disso encorrerá em pena de cincoenta cruzados, ametade pera a minha câmara, e a outra ametade pera quem o acusar.
E mando a todas as justiças, oficiaes e pessoas a que o conhecimento disto pertencer, que cumpram e guardem, e façam inteiramente comprir este alvará como se nele contém, o qual me praz que valha e tenha força e vigor como se fosse carta feita em meu nome, per mim assinada e passada per minha chancelaria, sem embargo da ordenação do Segundo Livro, Título vinte, que o contrairo despoem. E este alvará se tresladará no princípio de cada volume do dito livro, pera se saber, como o assi houve por bem.
João de Figueiredo o fez em Lisboa, a doze d´agosto, de mil e quinhentos e oitenta e cinco.
Manuel Godinho de Castelbranco o fiz escrever.
Rei.

PARATEXTOS LICENÇAS

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Icono PDF PALMEIRIM III-IV LICENÇA310.17 KB

[{2v}: licença] Eu, frei Bertolameu Ferreira, mestre em Santa Teologia, deputado do Santo Ofício e Revedor dos livros, vi por mandado do Supremo Conselho da Santa e Geral Inquisição destes reinos de Portugal esta história, cujo título é Terceira parte da Crónica de Palmeirim, e soposto, como é verdade, que os encantamentos e obras que aqui estão atribuídas à arte mágica são fingidas, o livro não tem nada contra nossa sagrada religião, e assi emendado como vai, a lugares, conforme às Regras do Catálogo Tridentino, se pode imprimir. Tem boa lingoagem, boas sentenças e boa doctrina, com muitas cousas que servem pera a polícia e conversação humana e costumes, em desconto d´outras fábulas e ociosidades que tem.

11 de junho 1585. Frei Bertolameu Ferreira. 

 

Vista a informação, pode-se imprimir com as emendas do padre Revedor, e, depois de impresso, tornará a esta Mesa pera se conferir com o original emendado, e se lhe dar licença pera correr.

Em Lisboa, 19 de junho 85. Jorge Sarrão. António de Mendoça.

PARATEXTOS DEDICATÓRIA

Ao muito ilustre senhor Pero d´Alcaçova Carneiro, Conde da Idanha, do Conselho do Estado de Sua Magestade e Vedor de sua Fazenda.

PARATEXTOS CÓLOFON

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[83v] Fim da Quarta Parte desta grande história do famoso e invictíssimo Palmeirim de Inglaterra, e heróicos feitos do não menos valeroso, o Segundo dom Duardos, seu filho, e mais Príncipes de seu tempo.

Impressa em Lisboa, em casa de Marcos Borges, impressor de livros.

Ano 1587.

COMPOSIÇÕES POÉTICAS

III PARTE

 

[91r/b] Os cuidados que me dais,
posto que sejam sem fruto,
nunca podem custar muito
que não valham muito mais.


Fé que o tempo faz mais forte,
longe está de ser vencida,
nem c´os perigos da vida,
nem c´os receos da morte.


Tal é o bem que se encerra
nos males que Amor me faz,
[91v/a] que não quero eu melhor paz
que a que me ele dá por guerra.


Que monta ser perseguido
o cuidado que me dais,
se então se levanta mais
quando está mais abatido?


Aquele firme querer
que eu contra o tempo sustento,
apesar de meu tormento,
sempre está em um mesmo ser.


[91v/b] Achou, enfim, meu descuido
que são promessas de Amor:
por fora, tudo favor,
por dentro, tormentos tudo.


Quando vos tenho presente
o bem de ver-vos é tal,
que não se atreve meu mal
A pôr-se onde me atormente.


É tão cruel o tormento
que de meus males nasceo,
que se vai queixar ao céo
o meu descontentamento.

 

[92r/b] Onde Leonida for, vá juntamente
o favor mais seguro da ventura,
que o tempo de hora em hora lhe acrescente,
revista-se-lhe o mar de fermosura,
e sobre as ondas mansas e fermosas
lhe mostre a viração nova brandura;
[92v/a] as Ninfas coroadas de ouro e rosas
em ricos açafates lhe apresentem
dos seus belos jardins frutas mimosas;
e, se irados ventos também sentem
o preço de um cabelo ondado e louro,
de cuja prisão bela se contentem,
presos naqueles crespos lassos d´ouro,
onde Amor, todo envolto em claridade,
guarda os poderes seus e o seu tesouro,
ponham a natural ferocidade,
e lá detrás da popa reclinados
em nada ousem sair-lhe da vontade.
Os pexes só por velha alvoroçados
sobre o cristal das ágoas se levantem,
em mil jogos e danças ocupados,
diante as aves docemente cantem;
e tão sobidas vão no que cantarem
que a terra juntamente e os céos espantem,
as nuvens que no ar então se acharem
em prateados toldos estendidas
seu belo parecer do sol emparem;
as praias de esmeraldas guarnecidas
mil conchas no regaço lhe ofereçam,
que nunca mais do mar sejam feridas.
Fermosos Cirnes entre as nuvens deçam
e, largando dos bicos rica presa,
por senhora do Amor a reconheçam;
o leme lhe governe a gentileza
e no alto da proa vá assentada
a graça natural que Amor mais preza.
Assi de seus poderes rodeada,
por onde quer que for, vá de alegria
e de serenidade acompanhada;
sereno e claro se lhe mostre o dia,
e vestida de roupas estreladas,
serena e clara a noite se lhe ria.
As rosas, que a Aurora trás toucadas,
de pérolas se estejam semeando
[92v/b] para serem sobr´ela derramadas.
De longe o tom do mar de quando em quando
Leonida nomee, e logo o vento
Leonida também vá nomeando.
Eu só nas mãos do descontentamento,
entre os medonhos monstros do receo,
tudo veja pesar, tudo tormento.
O dia me amanheça triste e feo
e a noite que a vio daqui partida
tudo de minhas mágoas veja cheo.
E tu, ó fermosíssima Leonida,
em cujo parecer resplandecente
me pôs Amor a liberdade e a vida,
se a pena que padeço, estando ausente,
satisfação algũa te merece,
e tê-la meu destino mo consente,
lembre-te do tormento que padece
esta alma sempre firme, e sempre tua,
que a si mesma por ti já desconhece;
e se queres que Amor lhe restitua
aquela sua glória tão prezada,
sua algũa hora, agora já não sua,
torna, Leonida minha, onde cansada
está de te chamar toda a espessura
que tu deixavas d´ouro matisada;
torna onde as mesmas flores da verdura,
nascidas para ti, por ti sospiram,
saudosas de ver tua fermosura;
torna onde os passarinhos que te viram
sobre as mais altas pontas do arvoredo
cantam as saudades que sentiram;
torna e verás o tosco de um penedo
onde Amor escreveo por consolar-me:
«A tua Leonida virá cedo».
Ele, que razão tinha de acabar-me,
como competidor de meus cuidados
é parte para agora remediar-me;
tu só por quem os eu tenho aceitados
[93r/a] como inimiga minha me trataste,
deixando-me entre males tão pesados.
Mas se a ventura quer que inda não baste
o dano de ũa ausência tão penosa
a que tão cruelmente me entregaste,
sei que nunca será tão poderosa
que, tirando-me a vida desta sorte,
quem me fez a dor dela tão ditosa,
me não faça também ditosa a morte.
----------------------------------------------------------------------------------------------------------

 

Quando Leonida dá licença ao vento
que menee aquele ouro delicado
onde nunca chegou nenhum tormento
que não fosse em prazer logo mudado,
forçado é que se arrede o pensamento
antes que chegue a ser nele enlasado,
que bem sei que prisão de tanto preço
nem a sei merecer, nem a mereço.
----------------------------------------------------------------------------------------------------------

 

Quando nos belos olhos de Leonida
se manifesta a luz que neles mora,
a beleza do céo fica vencida,
e logo se entristece e se descora.
Em sinal de vitória tão devida
os despojos que toma a vencedora
são as mostras daquele azul ditoso
que nos seus olhos anda tão fermoso!

 

 

[104r/b] Quem for na vida descontente dela,
aqui caminho tem para perdê-la.

 

 

[137v/b] Escuse de entrar cá
quem não recea.

 

 

[141v /b] A quem sobeja amor
falta ventura.

 

 

IV PARTE

 

[28v/b] Coimbra, infelicíssima Princesa,
só para males seus do céo guardada,
com quem amor usou tanta crueza
quanta com ninguém mais foi nunca usada.
Em prémio de sua alta gentileza
destas feras cruéis despedaçada,
aqui nesta pequena sepultura
mostra o poder d´amor e da ventura.

 

 

[21r/b] Naquela parte d´alma onde se encerra,
cansado de voar o pensamento
que tão ligeiro corre o mar e a terra,
nos campos di memória em largo assento,
fundada sobre firme segurança,
contra quem nada pode e esquecimento.
Sobre as altas colunas da esperança,
que de esmeraldas ricas foram feitas,
se mostra a grande Casa da Lembrança;
em roda vão de vidro contrafeitas
as imagens dos gastos que passaram
manchadas algum tanto das sospeitas,
a guarda delas para si tomaram,
de Hienas Africanas ajudados,
[21v/a] os tormentos cruéis que as inventaram.
Os cantos são a estância dos cuidados
que por usar do fogo que elas trazem
andam sobre Quimeras cavalgados;
entre eles seu assento as mágoas fazem
de Cardisces tristíssimas armadas,
e se algum prazer vem, logo o desfazem.
As portas, que jamais estão cerradas
por mão da delicada fantasia,
de estranhas invenções foram lavradas.
A devisa que tem na frontaria
é sobre um ninho antíguo ũa cegonha,
e diz a letra: «Anchor com´io folia».
E se alguém há que noutra parte ponha
que donde costumava o pensamento
aqui para notá-lo está a vergonha.
As paredes de todo este apousento,
porque o tempo não possa desfazê-las,
fê-las de diamante o sofrimento.
Pirâmides lustrosas, torres belas,
que rica traça da firmeza foram
levantando-se, vão ao longo delas.
Por dentro os sobressaltos de amor moram
e com qualquer pequena novidade
bandeiras pelas frestas logo arvoram.
A quadra mais escusa é da saudade,
que, no secreto dela recolhida,
trata consigo só mais à vontade.
A codurniz, que em seda trás tecida
é sua devisa, e diz a letra, em preto:
«Assi do próprio mal sustento a vida».
Defronte noutro posto mais secreto,
o enleo que em nada se assegura
sempre cuidando está, sempre inquieto,
aos pés as armas, e na bordadura,
escrito sobre os nós de ũa Amfisbena
«Qual delas haverei por mais segura?».
Tudo o que fica mais povoa a pena
[21v/b] e por ordem do tempo despertada
modos de atormentar somente ordena.
No mais alto de tudo levantada,
sobre oito vigas de ouro se sustenta
outra quadra mais rica e mais lavrada;
nela a própria lembrança se apousenta
e vestida da fé, que amor guarnece,
sobre ũa Leucogea, o trono assenta,
diante vassalagem reconhece
o bruto Esquecimento, e debruçado,
as entranhas de um lince lhe oferece.
E como do desejo lhe é mandado,
daqui num grifo seu ligeiramente
se parte o pensamento por recado.
Defronte no lugar mais eminente,
cercado de perpétua claridade,
que logo a quem a vê torna contente,
por debaixo de um véo de magestade
se mostra aquela imagem tão fermosa
de quem presa me traz a liberdade.
Imagem para tudo poderosa,
pois onde a dor da ausência mais se afina
a pena, que é mortal, faz ser ditosa.
Por cima lança o tempo outra cortina
e, se a ventura acerta de corrê-la,
tremendo per ant´ela amor se inclina.
Por insígnia ao pé tem ũa estrela
que as mais todas eclipsa, e escrito em cima:
«E chi nol crede, venga egli a vedela».
Os coruchéos e abóbadas de cima
o segredo as lavrou do esmalte rico,
que o amor teve sempre em grande estima
assi memórias minhas fortifico,
que nem do tempo ainda assi me fio,
e se claro não sou no que publico
intenda-me chi puo, che m´intendio.

 

 

[26v/a] Noutro fermoso vale, já algum dia
doces versos a amor cantei mais ledo,
quando minha ventura o consintia;
e inda agora guarda o arvoredo
nos altos troncos dos seus amieiros
escrita a glória, que eu perdi tão cedo.
Ao romper da manhã pelos outeiros
a minha bela Filis esperava
que trouxesse à ribeira os seus cordeiros,
e aquelas longas horas que tardava
ora em receos vãos que amor descobre,
ora em vãs esperanças as gastava.
Parecia-me o bosque seco e pobre
e tristes n´alma se m´afiguravam
as flores que d´aljófar a manhã cobre;
as ágoas de cristal que d´ouro orlavam
o rico manto da ribeira bela,
somente para mim turvas passavam.
Porém, como a ditosa minha estrela
trazia por ali minha pastora
e toda a fermosura posta nela,
a graça natural que nela mora
abria pelo bosque e pelo prado
a vinda alegre da rosada aurora.
Eu, de nova alegria acompanhado,
como se para olhá-la só nascera,
somente em a olhar tinha o cuidado;
despois, entre uns salgueiros presos, dera
colhia as tenras flores delicadas
que ricamente veste a primavera.
Das brancas, das azúis, das encarnadas
as que melhor a Filis paresciam
por mim, logo para ela eram cortadas;
as outras que este bem já conheciam,
de tão ditosa troca desejosas,
inclinadas à mão se ofereciam.
«Crescei», dizia eu, «crescei, vós rosas,
que cedo tocareis a bela testa
[26v/b] se não cais primeiro d´invejosas;
e vós, fermosos bosques de gresta,
poupai-vos, que inda o céo pode fazer
que em vós a minha Filis passe a festa».
Mas, enfim, quis amor que este prazer,
que o tempo tantas vezes me ordenava,
o tempo mo tornasse a desfazer;
perdi aquela vista onde fundava
a glória do maior contentamento
que o poder da ventura me guardava,
agora, posto em mãos de meu tormento,
em lembranças contínuas exercito
as saudades deste apartamento;
e, segundo meus males solicito,
infinita seria a pena minha
se o tempo para a ter fora infinito.
Se para isto na vida me detinha
milhor me fora, logo, então perdê-la,
que perder os seus gostos tão asinha;
mas sejam que me ordena a minha estrela.

 

 

[31r/b] Assi vos fez Amor esquiva e bela.

 

Porque nunca do descanso
soube o que dos males sei.
Nunca o quis, nunca o busquei.

 

De vos verem tão crua se envergonham.

 

[31v/a] Quem nesta se converteo,
se ver-vos antes pudera,
em fogo se convertera.

 

Tão pura é minha fé, mais de mais dura.

 

Quanto n´alma cresce menos
a esperança que me dais,
tanto a pena cresce mais.

 

Cresce o amor em mim, mas não se acaba.

 

Depois que amor me fez vosso
nunca mais me sofreo ter
nem mudança nem prazer.

 

Nas próprias esperanças desespero.

 

Esta n´ágoa não se molha,
como em mim quis minha sorte,
que não mouro em mãos da morte.

 


Assi dos males nace a glória deles.

 

Todo o mal vence e desterra
a graça que amor vos deu,
o meu não, que e,fim é meu.

 

[32r/a] Tem remédio para tudo,
mas não o tem para mi,
porque sem ele nasci!

 

Esta segue o seu sol, eu o meu sigo.

 

 

[33v/b] Furtou à morte o arco com que tira.

 

 

[35r-35v] Sílvio.

Quando a fermosa Philis leva à fonte
ou asombrado bosque o manso gado,
por onde quer que via, não há quem conte
as flores que de novo mostra o prado,
ou passe pelo vale ou pelo monte,
tudo deixa de lírios sinalado.
Eu, que as flores conheço que ela cria,
com lágrimas lhas rego noite e dia.

Laureno.

Quando a minha Laurénia segue a caça
tanto mais bela quanto mais cansada,
não há frol que por todo o bosque nasca
que com a ver não fique envergonhada.
A rosa perante ela perde a graça
noutra graça maior desenganada,
eu, que as flores vencidas sinto logo,
com fogo dos meus «ais» as torno em fogo.

Sílvio.

Lavando estava as mãos Filis um dia
onde mais saudoso o Tejo estava,
e da ágoa que dantre elas lhe saía
seus tisouros amor acrescentava.
O rio de soberbo parecia
dizer, quando na area murmurava:
«Ditosas minhas ágoas, que alcançaram
tocar mãos que a Amor as mãos ataram».

Laureno.

Por entre seu cabelo ondado e louro
de que o sol, invejoso, se escondia,
ũas folhas de murta, outras de louro,
Laurénia ao pé de um freixo entremetia.
O bosque, que no crespo e sotil ouro
onde se enlassa Amor suas folhas via,
parecia dizer pela espessura:
«Já não posso chegar à môr ventura».

Sílvio.

Já não posso chegar à mor ventura,
que a que tive em ser teu, minha pastora,
nem posso já ver mais que a fermosura
dos belos olhos teus, que o céo namora.
Veja-te em que te sempre veja dura
esta alma que por ti sempre em vão chora,
que nada pode haver que eu não aceite,
por ver eu rosto branco mais que o leite.

Laureno.

Por ver teu rosto branco mais que o leite,
a tamanhos perigos me aventuro,
o mal nunca me vem que não o aceite,
o bem nunca comigo está seguro;
se por isso mereço que me engeite
com tanta sem-razão teu peito duro,
sabe agora vingar-te inteiramente,
enquanto dos teus olhos vivo ausente.

Sílvio.

Enquanto dos teus olhos vivo ausente,
do claro lume deles apartado,
tudo se me afigura descontente,
tudo cheo de dor, tudo pesado;
e segundo me trata asperamente
a perigosa dor de meu cuidado,
lá se Amor para o mal me não guardara,
muito há que dor tamanha me acabara.

Laureno.

Muito há que dor tamanha me acabara,
se no teu parecer, porque me fino,
sobre as asas de Amor me não livrara
de tudo o que me ordena o mao destino;
e se contra meu mal assi me ampara,
o que em perfeiçõis tuas imagino,
por mais que me ele cresca, não me espanto,
se entre tantos perigos duro tanto.

Sílvio.

Ah Philis desleal, por que me matas?
Não vês que a Amor jurei de sempre amar-te,
pelos cabelos, onde as almas atas,
que ele à morte condena por olhar-te?
Se porque inda receas tão mal tratas,
qu´em todo o gosto pôs em contentar-te,
ou não quiseras crer-me, ou pois quiseste
torna-me agora a crer quanto me creste.

Laureno.

Jurado tenho a Amor pela brandura
dos teus olhos azúis, Laurénia bela,
de sempre trazer na alma tua figura,
sempre o bem de meu mal escrito nela;
se inda assi te faz crer minha ventura
que a fé que ũa vez dei, posso esquecê-la,
ou não quiseras crer-me ou pois quiseste,
torna-me agora a crer quanto me creste.

Sílvio.

Se te ofende de mi seres olhada,
vê-me e não te veja eu, pastora dura,
ver-me-ás sequer nos olhos trasladada,
a tua tão prezada fermosura;
verás ũa afeição na alma criada
que Amor de dia em dia mais apura,
e deixar-me-á esta vista em tal estado
que outro bem não grangee meu cuidado.

Laureno.

Se ver-me, Ninfa ingrata, tanto sentes
não me vejas a mim, deixa-me ver-te,
verei sequer teus olhos mais contentes,
e os meus mais receosos de perder-te:
verei os males longe, os bens presentes,
presente a doce glória de querer-te;
e deixar-me-á esta vista em tal estado
que outro bem não grangee meu cuidado.

 

 

[36r/b] Nabão, que nem nas covas da espessura
em duros exercícios ocupado,
pode escapar das forças da ventura,
que lhe um cruel amor tinha guardado,
quando cuidou lograr a fermosura
em quem lhe pôs a vida o seu cuidado,
então, por outra parte quis sua sorte
que, em vez d´achar a vida, achasse a morte.

 

 

[39r-39v] Já a calma nos deixou
sem flores as ribeiras graciosas,
já de todo secou
os lírios brancos e as vermelhas rosas
fogem do ardor do dia os passarinhos
para o sombrio amparo de seus ninhos.

Menea os altos freixos
a branda viração de quando em quando,
e dantre os vários seixos,
o líquido cristal sae murmurando,
as gotas que das alvas pedras saltam
o prado como pérolas esmaltam.

Da caça fatigada
se recolhe Diana na espessura,
onde à sombra deitada,
logre o doce repouso da verdura,
e sobre o seu cabelo crespo e louro
deixe cair o bosque o seu tesouro.

O céo desempedido
mostra os eternos lumes das estrelas
e de folhas vestido
de ũas verdes e doutras amarelas
se mostra alegre o bosque, alegre a fonte,
o arvoredo, o prado, o rio, o monte.

Mas como o inverno frio
da braveza do Sul acompanhado,
soceder ao estio,
que agora está dos campos apossado,
o bosque chorará, chorará a fonte,
o arvoredo, o prado, o rio, o monte.

O mar, que agora brando
é das lindas Nereidas cortado,
se irá alevantando
todo em crespas escamas empolado,
e o soberbo furor do negro vento
fará por toda a parte movimento.

Lei é da natureza
mudar-se desta sorte o tempo leve,
suceder à beleza
da primavera a calma, e à fruta a neve
para depois tornar por certo fio
autuno, inuerno, primauera, estio.

Tudo enfim faz mudança
quanto o sol mostra e quanto a terra
e o céo, que nunca cansa, cria;
o dia muda em noite e a noite em dia;
mudam-se as condições, muda-se a idade,
a bonança, os estados, a vontade.

Só a minha inimiga
a dura condição nunca mudou,
para que o mundo diga
que nela lei tão certa se quebrou;
só ela em me não ver sempre está firme,
ou por fugir de amor ou por fugir-me

Mas já sofrível fora,
só ela em me matar mostrar firmeza
se não achara agora
também em mim mudada a natureza,
pois sempre o coração tenho turbado,
sempre de escuras nuvens rodeado.

Sempre experimento os frios
que em contino receo Amor me manda;
sempre os dous caudais rios anda
que em meus olhos abrio, quem nos seus
correm sem chegar nunca verão brando,
que tamanha aspereza vá mudando.

O sol sereno e puro
que no fermoso rosto resplandece,
envolto em manto escuro,
de triste esquecimento não parece,
deixando em noite eterna a triste vida,
tão fraca, tão despesa, tão perdida.

Porém seja o que for,
mude-se por meu dano a natureza,
perca a mudança Amor
e a mudável Fortuna ache firmeza,
que em que tudo conjure contra mi,
firme hei de estar naquilo que emprendi.

 

CARTAS

[57v/b] Se erros cometidos sem vontade meresceram algum castigo, os meus o teveram tamanho, que por muito grandes que foram, já de todo esteveram pagos. Mas se pelo contrairo, a tenção das obras é a que lhe poem o preço, ainda que as minhas fossem alguns dias tão desviadas do que vós me mereceis, como nunca a tenção o foi, bem creo que dareis antes a culpa delas aos encantamentos que o causaram que à vontade que sempre foi vossa. Mas deixando estas contas para outro tempo, o que agora quero é somente acabar convosco que, posta de parte a razão de vossos queixumes, cobreis em lugar deles tamanha confiança de minhas cousas, que nem o passado vos lastime, nem o porvir vos dê receo, e como se ajunte a isto terdes muito cuidado de vossa saúde, recear-me-ei menos do que me agora fica de saber que estais sem ela; e para o mais vivei muito seguro, que quem teve lembrança de vos visitar a tal tempo, a terá também de descansar-vos.

PI III-IV. Lisboa, Jorge Rodrigues, 1604

ANO EDIÇÃO

1604

EDITOR

Jorge Rodrigues. 

A sua actividade desenvolveu-se em Lisboa. A sua relativa fama dentro do âmbito tipográfico deve-se às edições piratas da Primera e Segunda Partes do Quixote. Crê-se que já estava activo nos finais do século XVI e chegou a trabalhar até perto de 1641. Colaborou com António Álvares em 1602.

PARATEXTOS FRONTISPÍCIO

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[{1r}] Dom Duardos de Bretanha.

Terceira Parte da Crónica de Palmeirim de Inglaterra, na qual se tratam as grandes cavalarias de seu filho, o príncipe dom Duardos Segundo, e dos mais príncipes e cavaleiros que na Ilha Deleitosa se criaram.

Composto por Diogo Fernandez, vezinho de Lisboa.
Impressa com licença.
Impresso em Lisboa por Jorge Rodriguez. Ano de mil e seiscentos e quatro.

Com privilégio real.

PARATEXTOS PRÓLOGOS

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[{2r}] Prólogo dirigido ao muito ilustre senhor Pero d´Acaçova Carneiro, Conde da Idanha, do Conselho do Estado de Sua Magestade e Vedor de sua fazenda.

 

Há tanto que se deseja a Segunda Parte de Palmeirim de Inglaterra por quão bem a primeira tem parecido aos que a leram, que ainda que o risco que se corria nisso era para mim muito grande, assi pela empresa ser em si dificultosa como por ficar subjecta a muitos falarem dela, quis todavia furtar o corpo ao receo, e alimpando como pude a que dela tinha composta, pareceo-me agravo que aos curiosos se fazia não procurar comunicar-lha. E se alguém houver, porventura, com quem as cousas desta sorte estejam em mao foro, por não ser afeiçoado às que são fabulosas, folgaria que lhe lembrasse que o intento de quem as faz não é acreditar fábulas, que todos tem por essas, mas é por meo [delas] descobrir os caminhos por onde os merecimentos custumam alcançar-se, antes assi como os espelhos, segundo Séneca dizia, se não inventaram para mais que para cada um, vendo-se neles, aprender o decoro que lhe convinha, assi o fim principal de histórias semelhantes, é pôr diante de todos lustrosos exemplos de príncipes e cavaleiros para que nos sucessos de maos vícios enxerguem os desse toque, o perigo de seus vícios e na braveza deles se desafeçoem, e pelo contrairo, nos bons e bem criados aprendam os que o forem os degráos gloriosos por onde se sobe ao mais perfeito e reconheçam os postos onde as obras jutas se abalizam.
E não é inconveniente meter algũas vezes amores profanos e encantamentos mágicos, porque se em os arraiais dos imigos se não pode andar senão disfraçado, mal poderá a virtude, que na terra tem tantos, passar segura entr´eles, se desta maneira a não embuçarmos, que esta foi a causa porque os antigos filósofos, ora em versos numerosos, ora em prosa, em suas ficções nos deixaram escondidos os preceitos e exemplos dos bons custumes, como depois de Homero fez Platão nos Diálogos, Pitágoras nos Símbolos, e Xenofonte no seu Ciro, e após eles os outros, cujos escritos inda temos. E ainda em nossos tempos foram por este caminho aqueles raros espíritos ambos os Tassos e Ariosto, a quem todos os mais com tanto estudo imitam.
Não pretendo nisto favorecer deshonestidades que em os livros de cavalarias se poderão achar, antes trabalhei tudo o que pude por alimpar este meu delas. Mais razões haveria para mostrar esta verdade, mas a que a mim me basta é saber que Vossa Ilustríssima Senhoria está nisto da minha banda e como quem nele para tudo tem tão grande emparo, pouco ânimo será temer as língoas dos maldizentes, que se a sombra dos freixos, como os naturais escrevem, defende das serpentes quem se acolhe a ela, se alguém for tão ousado que cuide com a sua perjudicar-me, assaz de sombras tenho nas grandes partes de Vossa Senhoria, para debaixo delas viver sempre seguro. E conforme a isto, não deve de parecer sobejo atrevimento querer oferecer-lhe esta pequena mostra de meus desejos, que como tem as raízes na minha pouca possibilidade, não podem mais brotar que estes serviços tão pequenos.

 

PARATEXTOS LICENÇAS

 

[{2v}: licenças] Eu, El-Rei, faço saber aos que este alvará virem que eu hei por bem e me praz, por fazer mercê a Diogo Fernandez, morador nesta cidade de Lisboa, que por tempo de dez anos, que começaram da feitura deste, imprimidor nem livreiro, nem outra pessoa algũa de qualquer calidade que seja, não possa imprimir nem vender nestes reinos e senhorios de Portugal, nem trazer de fora deles o livro que o dito Diogo Fernandez compôs, que se intitula Terceira e Quarta parte de Palmeirim de Inglaterra, saluo aqueles livreiros e pessoas que para isso tiverem seu poder e licença, e qualquer imprimidor e livreiro, ou pessoa que imprimir ou vender o dito livro, ou de fora destes reinos trouxer impresso sem licença do dito Diogo Fernandez, perderá para ele todos os volumes que lhe forem achados, e além disso, encorrerá em pena de cincoenta cruzados, ametade para a minha câmara, e a outra ametade pera quem o acusar.
E mando a todas as justiças, oficiaes e pessoas a que o conhecimento disto pertencer, que cumpram e guardem e façam inteiramente comprir este alvará como se nele contém, o qual me praz que valha e tenha força e vigor, como se fosse carta feita em meu nome per mi assinada e passada per minha chancelaria, sem embargo da ordenção do Segundo Livro, Título Vinte, que o contrairo despoem; e este alvará se tresladará no princípio de cada volume do dito livro, pera se saber, como o assi houve por bem.

João de Figueiredo o fez em Lisboa, a trinta de Abril de mil e seiscentos e quatro.
Manoel Godinho de Castelbranco o fiz escrever.
Rei. 

 

Vi esta Terceira e Quarta Parte da Crónica de Palmeirim, autor Diogo Fernandez, e soposto, como é verdade, que os encantamentos e obras que aqui estão atribuídos a arte mágica são fingidas, o livro todo não tem cousa algũa contra a nossa Santa Fé Católica, bons costumes e guarda deles, onde sou de parecer que se pode imprimir; e ainda que é cheo de feiçois imaginadas, serve de entretenimento do tempo, e conforme ao parecer de S. Jerónimo e de Plínio, o Menor, não há livro taõ mao do qual se não possa tirar algum fruito se as pessoas se quiserem aproveitar. Este tem boa lingoagem, boas sentenças e ensina serem os homens esforçados, honestos e verdadeiros.
Frei Manoel Coelho.

 

Vista a informação, pode-se imprimir esta Terceira e Quarta parte de Palmeirim, e depois de impresso, torne a este Conselho pera se conferir e dar licença para correr; e sem ela não correrá.

Em Lisboa, 9 de janeiro de 603.
Marcos Teixeira. Rui Pirez da Veiga.

 

PARATEXTOS DEDICATÓRIA

Ao muito ilustre senhor Pero d´Acaçova Carneiro, Conde da Idanha, do Conselho do Estado de Sua Magestade e Vedor de sua Fazenda.

COMPOSIÇÕES POÉTICAS

 

III PARTE

 

[5r/a] Cruelmente morre quem cruelmente mata.

 

 

[118r/b] Os cuidados que me dais,
posto que sejam sem fruto,
nunca podem custar muito
que não valham muito mais.


[118v/a] Fé que o tempo faz mais forte,
longe está de ser vencida,
nem c´os perigos da vida,
nem c´os receos da morte.


Tal é o bem que se encerra
nos males que Amor me faz,
que não quero eu melhor paz
que a que me ele dá por guerra.


Que monta ser perseguido
o cuidado que me dais,
se então se levanta mais
quando está mais abatido?


[118v/b] Aquele firme querer
que eu contra o tempo sustento,
apesar de meu tormento,
sempre está em um mesmo ser.


Achou, enfim, meu descuido
que são promessas de Amor:
por fora, tudo favor,
por dentro, tormentos tudo.


Quando vos tenho presente
o bem de ver-vos é tal,
que não se atreve meu mal
a pôr-se onde me atormente.


[119r/a] É tão cruel o tormento
que de meus males nasceo,
que se vai queixar ao céo
o meu descontentamento.

 

 

[119v/a] Onde Leonida for, vá juntamente
o favor mais seguro da ventura,
que o tempo de hora em hora lhe acrescente,
revista-se-lhe o mar de fermosura,
e sobre as ondas mansas e fermosas
[119v/b] lhe mostre a viração nova brandura;
as Ninfas coroadas de ouro e rosas
em ricos açafates lhe apresentem
de seus belos jardins frutas mimosas;
e se a ira dos ventos também sentem
o preço de um cabelo ondado e louro,
de cuja prisão bela se contentem,
presos naqueles crespos lassos d´ouro,
onde Amor, todo envolto em claridade,
guarda os poderes seus e seu tesouro,
ponham a natural ferocidade,
e lá detrás da popa reclinados
em nada ousem sair-lhe da vontade.
Os peixes só por vê-la alvoroçados
sobre o cristal das ágoas se levantem,
em mil jogos e danças ocupados,
diante as aves docemente cantem;
e tão sobidas vão no que cantarem
que a terra juntamente e o ar espantem,
as nuvens que no ar então se acharem
em prateados toldos estendidas
seu belo parecer do sol emparem;
as praias de esmeraldas guarnecidas
mil conchas no regaço lhe ofereçam,
que nunca mais do mar sejam feridas.
Fermosos Cisnes entre as nuvens deçam
e, largando dos bicos rica presa,
por senhora do Amor a reconheçam;
o leme lhe governe a gentileza
e no alto da proa vá assentada
a graça natural que Amor mais preza.
Assi de seus poderes rodeada,
por onde quer que for, vá de alegria
e de serenidade acompanhada;
sereno e claro se lhe mostre o dia,
e vestida de roupas estreladas,
serena e clara a noite se lhe ria.
As rosas, que a Aurora trás toucadas,
[120r/a] de pérolas se estejam semeando
para serem sobr´ela derramadas.
De longe o tom do mar de quando em quando
Leonida nomee, e logo o vento
Leonida também vá nomeando.
Eu só nas mãos do descontentamento,
entre os medonhos monstros do receo,
tudo veja pesar, tudo tormento.
O dia me amanheça triste e feo
e a noite que a vio daqui partida
tudo de minhas mágoas veja cheo.
E tu, ó fermosíssima Leonida,
em cujo parecer resplandecente
me pôs Amor a liberdade e a vida,
se a pena que padeço, estando ausente,
satisfação algũa te merece,
e tê-la meu destino mo consente,
lembre-te do tormento que padece
esta alma sempre firme, e sempre tua,
que a si mesma por ti já desconhece;
e se queres que Amor lhe restitua
aquela sua glória tão prezada,
sua algũa hora, agora já não sua,
torna, Leonida minha, onde cansada
está de te chamar toda a espessura
que tu deixavas d´ouro matisada;
torna onde as mesmas flores da verdura,
nascidas para ti, por ti sospiram,
saudosas de ver tua fermosura;
torna onde os passarinhos que te viram
sobre as mais altas pontas do arvoredo
cantam as saudades que sentiram;
torna e verás o tosco de um penedo
onde Amor escreveo por consolar-me:
«A tua Leonida virá cedo».
Ele, que razão tinha de acabar-me,
como competidor de meus cuidados
[120r/b] é parte para agora remediar-me;
tu só por quem os eu tenho aceitados
como inimiga minha me trataste,
deixando-me entre males tão pesados.
Mas se a ventura quer que inda não baste
o dano de ũa ausência tão penosa
a que tão cruelmente me entregaste,
sei que nunca será tão poderosa
que, tirando-me a vida desta sorte,
quem me fez a dor dela tão ditosa,
me não faça também ditosa a morte.
----------------------------------------------------------------------------------------------------------

[120r/b] Quando Leonida dá licença ao vento
que menee aquele ouro delicado
onde nunca chegou nenhum tormento
que não fosse em prazer logo mudado,
forçado é que se arrede o pensamento
antes que chegue a ser nele enlasado,
que bem sei que prisão de tanto preço
nem a sei merecer, nem a mereço.
----------------------------------------------------------------------------------------------------------

[120v/a] Quando nos belos olhos de Leonida
se manifesta a luz que neles mora,
a beleza do céo fica vencida,
e logo se entristece e se descora.
Em sinal de vitória tão devida
os despojos que toma a vencedora
são as mostras daquele azul ditoso
que nos seus olhos anda tão fermoso!

 

 

[132v/a] Quem for na vida descontente dela,
aqui caminho tem para perdê-la.

 

 

[169r/b] Escuse de entrar cá
quem não recea.

 

 

[172r/a] A quem sobeja amor
falta ventura.

 

 

IV PARTE

 

[20r/b] Naquela parte d´alma onde se encerra,

cansado de voar o pensamento
que tão ligeiro corre o mar e a terra,
nos campos di memória em largo assento,
fundada sobre firme segurança,
contra quem nada pode o esquecimento.
Sobre as altas colunas da esperança,
que de esmeraldas ricas foram feitas,
se mostra a grande Casa da Lembrança;
em roda vão de vidro contrafeitas
as imagens dos gastos que passaram
manchadas algum tanto das sospeitas,
a guarda delas para si tomaram,
de Hienas Africanas ajudados,
os tormentos cruéis que as inventaram.
Os cantos são a estância dos cuidados
que por usar do fogo que elas trazem
andam sobre Quimeras cavalgados;
entre eles seu assento as mágoas fazem
de Cardisces tristíssimas armadas,
e se algum prazer vem, logo os fazem.
As portas, que jamais estão cerradas
por mão da delicada fantasia,
de estranhas invenções fora[m] lavradas.
A devisa que tem na frontaria
é sobre um ninho antíguo ũa cegonha,
e diz a letra: «Anchor com´io folia».
E se alguém há que noutra parte ponha
[20v/a] que donde costumava o pensamento
aqui para notá-lo está a vergonha.
As paredes de todo este aposento,
porque o tempo não possa desfazê-las,
fê-las de diamante o sofrimento.
Pirâmides lustrosas, torres belas,
que rica traça da firmeza foram
levantando-se, vão ao longo delas.
Por dentro os sobressaltos de amor moram
e com qualquer pequena novidade
bandeiras pelas frestas logo arvoram.
A quadra mais escusa é da saudade,
que, no secreto dela recolhida,
trata consigo só mais à vontade.
A codurniz, que em seda trás tecida
é sua devisa, e diz a letra, em preto:
«Assi do próprio mal sustento a vida».
Defronte noutro posto mais secreto,
o enleo que em nada se assegura
sempre cuidando está, sempre inquieto,
aos pés as armas, e na bordadura,
escrito sobre os nós de ũa Anfisbena
«Qual delas haverei por mais segura?».
Tudo o que fica mais povoa a pena
e por ordem do tempo despertada
modos de atormentar somente ordena.
No mais alto de tudo levantada,
sobre oito vigas de ouro se sustenta
outra quadra mais rica e mais lavrada;
nela a própria lembrança se aposenta
e vestida da fé, que amor guarnece,
sobre ũa Leucogea, o trono assenta,
diante vassalagem reconhece
o bruto Esquecimento, e debruçado,
as entranhas de um lince lhe oferece.
E como o desejo lhe é mandado,
daqui num grifo seu ligeiramente
se parte o pensamento por recado.
[20v/b] Defronte no lugar mais eminente,
cercado de perpétua claridade,
que logo a quem a vê torna contente,
por debaixo de um véo de magestade
se mostra aquela imagem tão fermosa
de quem presa me traz a liberdade.
Imagem para tudo poderosa,
pois onde a dor da ausência mais se afina
a pena, que é mortal, faz ser ditosa.
Por cima lança o tempo outra cortina
e, se a ventura acerta de corrê-la,
tremendo per ant´ela amor se inclina.
Por insígnia ao pé tem ũa estrela
que as mais todas eclipsa, e escrito em cima:
«E chi nol crede, venga egli a vedela».
Os coruchéos e abóbadas de cima
o segredo as lavrou do esmalte rico,
que amor teve sempre em grande estima
assi memórias minhas fortifico,
que nem do tempo ainda assi me fio,
e se claro não sou no que publico
intenda-me chi può, che m´intendio.

 

 

[25v/b] Noutro fermoso vale, já algum dia
doces versos a amor cantei mais ledo,
quando minha ventura o consintia;
e inda agora guarda o arvoredo
nos altos troncos dos seus amieiros
escrita a glória, que eu perdi tão cedo.
Ao romper da manhã pelos outeiros
a minha bela Filis esperava
que trouxesse à ribeira os seus cordeiros,
e aquelas longas horas que tardava
ora em receos vãos que amor descobre,
[26r/a] ora em vãs esperanças as gastava.
Parecia-me o bosque seco e pobre
e tristes n´alma se m´afiguravam
as flores que d´aljófar a manhã cobre;
as ágoas de cristal que d´ouro orlavam
o rico manto da ribeira bela,
somente para mim turvas passavam.
Porém, como a ditosa minha estrela
trazia por ali minha pastora
e toda a fermosura posta nela,
a graça natural que nela mora
abria pelo bosque e pelo prado
a vinda alegre da rosada aurora.
Eu, de nova alegria acompanhado,
como se para olhá-la só nascera,
somente em a olhar tinha o cuidado;
despois, entre uns salgueiros presos, dera
colhia as tenras flores delicadas
que ricamente veste a primavera.
Das brancas, das azúis, das encarnadas
as que melhor a Filis paresciam
por mim, logo para ela eram cortadas;
as outras que este bem já conheciam,
de tão ditosa troca desejosas,
inclinadas à mão se ofereciam.
«Crescei», dizia eu, «crescei, vós rosas,
que cedo tocareis a bela testa
se não cais primeiro d´invejosas;
e vós, fermosos bosques de gresta,
poupai-vos, que inda o céo pode fazer
que em vós a minha Filis passe a festa».
Mas, enfim, quis amor que este prazer,
que [o] tempo tantas vezes me ordenava,
o tempo mo tornasse a desfazer;
perdi aquela vista onde fundava
a glória do maior contentamento
que o poder da ventura me guardava,
agora, posto em mãos de meu tormento,
[26r/b] em lembranças contínuas exercito
as saudades deste apartamento;
e, segundo meus males solicito,
infinita seria a pena minha
se o tempo para a ter fora infinito.
Se para isto na vida me detinha
milhor me fora, logo, então perdê-la,
que perder os seus gostos tão asinha;
mas seja o que me ordena minha estrela.

 

 

[28r/b] Coimbra, infelicíssima princesa,
só para males seus do céo guardada,
com quem amor usou tanta crueza
quanta com ninguém mais foi nunca usada.
Em prémio de sua alta gentileza
destas feras cruéis despedaçada,
aqui nesta pequena sepultura
mostra o poder d´amor e da ventura.

 

 

[30v/b] Assi vos fez Amor esquiva e bela.

 

[31r/a] Porque nunca do descanso
soube o que dos males sei.
Nunca o quis, nunca o busquei.

 

De vos verem tão crua se envergonham.

 

Quem nesta se converteo,
se ver-vos antes pudera,
em fogo se convertera.

 

Tão pura é minha fé, mais de mais dura.

 

[31r/b] Quanto n´alma cresce menos
a esperança que me dais,
tanto a pena cresce mais.

 

Cresce o amor em mim, mas não se acaba.

 

Depois que amor me fez vosso
nunca mais me sofreo ter
nem mudança nem prazer.

 

Nas próprias esperanças desespero.

 

[31v/a] Esta mágoa não se molha,
como em mim quis minha sorte,
que não mouro em mãos da morte.

 

Assi dos males nace a glória deles.

 

Todo o mal vence e desterra
a graça que amor vos deu,
o meu não, que e,fim é meu.

 

Tem remédio para tudo,
mas não o tem para mi,
porque sem ele nasci!

 

[31v/b] Esta segue o seu sol, eu o meu sigo.

 


[32v/a] Assi do fogo dalma, os olhos chorã

 

 

[33v/a] Furtou à morte o arco com que tira.

 

 

[35r/a] Sílvio.

[35r/b] Quando a fermosa Philis leva à fonte
ou asombrado bosque o manso gado,
por onde quer que vai, não há quem conte
as flores que de novo mostra o prado,
ou passe pelo vale ou pelo monte,
tudo deixa de lírios sinalado.
Eu, que as flores conheço que ela cria,
com lágrimas lhas rego noite e dia.

Laureno.

Quando a minha Laurénia segue a caça
tanto mais bela quanto mais cansada,
não há frol que por todo o bosque nasca
que com a ver não fique envergonhada.
A rosa perante ela perde a graça
noutra graça maior desenganada,
eu, que as flores vencidas sinto logo,
com fogo dos meus «ais» as torno em fogo.

Sílvio.

Lavando estava as mãos Filis um dia
onde mais saudoso o Tejo estava,
e da ágoa que dantre elas lhe saía
seus tisouros amor acrescentava.
O rio de soberbo parecia
dizer, quando na area murmurava:
«Ditosas minhas ágoas, que alcançaram
tocar mãos que a Amor as mãos ataram».

Laureno.

Por entre seu cabelo ondado e louro
de que o sol, invejoso, se escondia,
ũas folhas de murta, outras de louro,
Laurénia ao pé de um freixo entremetia.
O bosque, que no crespo e sotil ouro
onde se enlassa Amor suas folhas via,
parecia dizer pela espessura:
«Já não posso chegar à môr ventura».

[36r/a] Sílvio.

Já não posso chegar à mor ventura,
que a que tive em ser teu, minha pastora,
nem posso já ver mais que a fermosura
dos belos olhos teus, que o céo namora.
Veja-te em que te sempre veja dura
esta alma que por ti sempre em vão chora,
que nada pode haver que eu não aceite,
por ver eu rosto branco mais que o leite.

Laureno.

Por ver teu rosto branco mais que o leite,
a tamanhos perigos me aventuro,
o mal nunca me vem que não o aceite,
o bem nunca comigo está seguro;
se por isso mereço que me engeite
com tanta sem-razão teu peito duro,
sabe agora vingar-te inteiramente,
enquanto dos teus olhos vivo ausente.

Sílvio.

Enquanto dos teus olhos vivo ausente,
do claro lume deles apartado,
tudo se me afigura descontente,
tudo cheo de dor, tudo pesado;
e segundo me trata asperamente
a perigosa dor de meu cuidado,
já se Amor para o mal me não guardara,
muito há que dor tamanha me acabara.

Laureno.

Muito há que dor tamanha me acabara,
se no teu parecer, porque me fino,
sobre as asas de Amor me não livrara
de tudo o que me ordena o mao destino;
e se contra meu mal assi me ampara,
o que em perfeiçõis tuas imagino,
por mais que me ele cresca, não me espanto,
se entre tantos perigos duro tanto.

Sílvio.

[36r/b] Ah Filis desleal, por que me matas?
Não vês que a Amor jurei sempre amar-te,
pelos cabelos, onde as almas atas,
que ele à morte condena por olhar-te?
Se porque inda receas tão mal tratas,
qu´em todo o gosto pôs em contentar-te,
ou não quiseras crer-me, ou pois quiseste
torna-me agora a crer quanto me creste.

Laureno.

Jurado tenho a Amor pela brandura
dos teus olhos azúis, Laurénia bela,
de sempre trazer na alma tua figura,
sempre o bem de meu mal escrito nela;
se inda assi te faz crer minha ventura
que a fé que ũa vez dei, posso esquecê-la,
ou não quiseras crer-me ou pois quiseste,
torna-me agora a crer quanto me creste.

Sílvio.

Se te ofendi, de mi serás olhada,
vê-me e não te veja eu, pastora dura,
ver-me-ás sequer nos olhos trasladada,
a tua tão prezada fermosura;
verás ũa afeição na alma criada
que Amor de dia em dia mais apura,
e deixar-me-á esta vista em tal estado
que outro bem não grangee meu cuidado.

 

 

[36r/b] Nabão, que nem nas covas da espessura
em duros exercícios ocupado,
pode escapar das forças da ventura,
que lhe um cruel amor tinha guardado,
quando cuidou lograr a fermosura
em quem lhe pôs a vida o seu cuidado,
então, por outra parte quis sua sorte
que, em vez d´achar a vida, achasse a morte.

 

 

[39v/a] Já a calma nos deixou
sem flores as ribeiras graciosas,
já de todo secou;
os lírios brancos e as vermelhas rosas
fogem do ardor do dia os passarinhos
para o sombrio amparo de seus ninhos.

Menea os altos freixos
a branda viração de quando em quando,
e dantre os vários seixos,
o líquido cristal sae murmurando,
as gotas que das alvas pedras saltam
o prado como pérolas esmaltam.

Da caça fatigada
se recolhe Diana na espessura,
onde à sombra deitada,
logre o doce repouso da verdura,
e sobre o seu cabelo crespo e louro
deixe cair o bosque o seu tesouro.

O céo desempedido
mostra os eternos lumes das estrelas
e de folhas vestido
de ũas verdes e doutras amarelas
se mostra alegre o bosque, alegre a fonte,
o arvoredo, o prado, o rio, o monte.

Mas como o inverno frio
da braveza do Sul acompanhado,
soceder ao estio,
que agora está dos campos apossado,
o bosque chorará, chorará a fonte,
o arvoredo, o prado, o rio, o monte.

[39v/b] O mar, que agora brando
é das lindas Nereidas cortado,
se irá alevantando
todo em crespas escamas empolado,
e o soberbo furor do negro vento
fará por toda a parte movimento.

Lei é da natureza
mudar-se desta sorte o tempo leve,
suceder à beleza
da primavera a calma, e à fruta a neve
para depois tornar por certo fio
autuno, inuerno, primauera, estio.

Tudo enfim faz mudança
quanto o sol mostra e quanto a terra
e o céo, que nunca cansa, cria;
o dia muda em noite e a noite em dia;
mudam-se as condições, muda-se a idade,
a bonança, os estados, a vontade.

Só a minha inimiga
a dura condição nunca mudou,
para que o mundo diga
que nela lei tão certa se quebrou;
só ela em me não ver sempre está firme,
ou por fugir de amor ou por fugir-me

Mas já sofrível fora,
só ela em me matar mostrar firmeza
se não achara agora
também em mim mudada a natureza,
pois sempre o coração tenho turbado,
sempre de escuras nuvens rodeado.

Sempre experimento os frios
que em contino receo Amor me manda;
[40r/a] sempre os dous caudais rios anda
que em meus olhos abrio, quem nos seus
correm sem chegar nunca verão brando,
que tamanha aspereza vá mudando.

O sol sereno e puro
que no fermoso rosto resplandece,
envolto em manto escuro,
de triste esquecimento não parece,
deixando em noite eterna a triste vida,
tão fraca, tão despesa, tão perdida.

Porém seja o que for,
mude-se por meu dano a natureza,
perca a mudança Amor
e a mudável Fortuna ache firmeza,
que em que tudo conjure contra mi,
firme hei de estar naquilo que emprendi.

 

 

ÁRVORE GENEALÓGICA DE PERSONAGENS (ARCHIVO):