Última atualização: 14/05/2018 - 15:13

ARGONÁUTICA DA CAVALARIA I-II

AUTOR

TRISTÃO GOMES DE CASTRO

BIOGRAFIA

Sabe-se muito pouco dele. Só o genealogista Henrique Henriques de Noronha, grande conhecedor da história da Madeira e autor do Nobiliário Genealógico das Famílias que passarão a viver a esta ilha depois do seu descobrimento, tinha revelado alguns aspectos relativos à sua vida. Foi, em grande medida, a partir das suas pesquisas que pudemos descobrir a maioria dos dados biográficos que oferecemos de seguida. 
Natural do Funchal, as origens do nosso protagonista mergulham as suas raízes naquelas primeiras famílias que colonizaram o arquipélago da Madeira após a sua incorporação na coroa portuguesa, cerca de 1420, ano da chegada de João Gonçalves Zarco e Tristão Vaz. O bisavô materno de Gomes de Castro foi João Gomes, apodado pelos seus contemporâneos “o Trovador” devido ao seu gosto pela composição de versos. Desta inclinação para a lírica existem vestígios no Cancioneiro Geral de Garcia de Resende (1516), onde se recolhem ao redor de vinte composições suas, umas poesias que, unidas às de outros poetas madeirenses presentes no mesmo poemário, formaram o que Teófilo Braga denominou o “ciclo poético da Madeira”. De entre aquelas é digno de destaque, por exemplo, uma trova em louvor à senhora dona Felipa de Vilhena, que diz assim:

 

De Fernam da Silveira que daa borcado pera ũu jibam a quem fezer milhor trova de louvor à senhora dona Felipa de Vilhena e ha-de ser julgado per ela

Joham Gomez da Ilha

 

Tal é vosso parecer,
vossa fermosura tanta,
siso, bondade, saber,
que se nam pode dizer
quanto nem quanta.
Assi perfeita vos fez
Quem por nós morreo na cruz,
que de todas fareis pez
e trevas e de vós luz .

 

À margem da sua actividade literária, João Gomes não só teve terras de sesmaria nas margens da ribeira, cujo lugar passou a adquirir –e ainda conserva- o nome de João Gomes, senão que também ostentou o cargo de Pajem do Livro do infante D. Henrique, o que lhe permitiu, provavelmente, deter muitos bens na ilha da Madeira. Segundo consta no seu testamento, redigido no dia 7 de Novembro de 1495, foi também nomeado escudeiro do mesmo infante D. Henrique, e com a sua mulher, Guiomar Ferreira, filha de Gonçalo Aires Ferreira e viúva de João Afonso –seu primeiro marido-, instituiu um morgadio das suas possessões a favor dos seus filhos primogénitos. Tanto João Gomes como Guiomar Ferreira foram sepultados na Madeira, exactamente na capela de Nossa Senhora da Graça da desaparecida igreja de S. Francisco, lugar onde antigamente se mandava enterrar a maioria da nobreza lusitana.
Daquela união matrimonial nasceram quatro filhos, dois varões e duas fêmeas. Entanto que estas emparelharam com a família francesa dos Bettencourt, Guiomar Ferreira com João o Cavaleiro, e Bárbara Gomes Ferreira com João o Velho da Ribeira Brava, o filho mais velho, Bárbaro Gomes Ferreira, que, além de ser o sucessor na casa dos seus pais foi fidalgo do rei D. Manoel e intendente das obras da Sé velha do Funchal, casou, por primeira vez, com Guiomar Mendes de Vasconcelos, com quem teve a Luís Gomes de Vasconcelos, que se uniu em matrimônio, por sua vez, com a sua própria meia-irmã Mécia de Castro, filha de Paio de Sá, o descobridor da ilha de Ceilão, e de Genebra de Castro. Bárbaro Gomes Ferreira tomou segundas núpcias com esta última depois de ela enviuvar do seu marido, matrimónio do qual nasceu uma filha a que chamaram Joana Gomes de Castro.
Várias décadas depois, a mesma Joana Gomes de Castro conheceu um descendente de fidalgos castelhanos chamado Cristóvão Martins de Agrinhão e Vargas, filho de Isabel de Agrinhão e de Martim Gonçalves de Vargas e Gusmão. Tratava-se de um sevilhano que tinha vindo para Portugal como Mordomo Mor da duquesa de Bragança, dona Leonor de Mendonça. Com a passagem do tempo, Cristóvão chegou a ser fidalgo da Casa do duque de Bragança D. Jaime, cujo serviço abandonou como consequência da violenta morte da duquesa. Este trágico acontecimento incitou-o a embarcar rumo às Américas com o fim de tentar fazer fortuna no Perú, daí que a sua família adquirisse desde então o apelativo dos “Perús”. Contudo, por motivos desconhecidos viu-se forçado a voltar a Europa vários anos mais tarde, mas desta vez instalou-se na cidade do Funchal, onde casou com Joana Gomes de Castro. Com ela teve dois filhos: Francisco, que morreu criança, e o nosso Tristão Gomes de Castro, que nasceu por volta do dia 3 de Setembro de 1539, data da morte da mãe como consequência do parto . Por esta causa, o nosso autor adquiriu o nome de Tristão em lembrança da sua defunta mãe, pseudónimo, por outro lado, muito comum numa época marcada por estes sucessos.
Devido, portanto, às trágicas circunstâncias do seu nascimento e por um acaso do destino, Tristão Gomes de Castro converteu-se no herdeiro da casa dos seus avós, Bárbaro Gomes Ferreira e Genebra de Castro, em título de “Gomes de Castro”. Transcorrida a sua infância, provavelmente, junto da corte portuguesa, alcançou a ser fidalgo da casa do rei D. João III, cavaleiro da ordem militar de Cristo e, por último, Alferes-Mor da ilha da Madeira.
Na sua estadia na corte casou pela primeira vez com Izabel de Andrada, dama da rainha Dna. Catarina e filha de Isabel Rodrigues Berenguer e de Ruy Gonçalves -ou Fernandes- d´Andrada. Fruito desta relação foram os seus dois filhos João Gomes de Castro, sucessor da casa do seu pai, e Guiomar de Andrada, vinda ao mundo em 1563 e morta solteira no dia 26 de Janeiro de 1615.
Uns meses após o falecimento da sua primeira mulher –a 28 de Março de 1567-, Tristão Gomes de Castro, trasladado definitivamente na cidade do Funchal, uniu-se em matrimónio pela segunda vez, “em vinte e cinco dias do mês de Novembro de 1567”, “a Andreza d´Abreu, filha de Pedro Carreiros e de sua molher Antónia Rabela, natural de Funchal”, como assim o testemunha o Livro de Casamentos da freguesia da Sé de Funchal, número 50, fl. 52. Deste enlace matrimonial com Andreza de Abreu nasceram até cinco filhos: Diogo Carreiro de Castro, António Gomes de Castro, Antónia de Abreu, Joana de Abreu e Francisca de Castro.
Na capital madeirense o casal estabeleceu-se “no Caminho do Meio, asima da sua quinta da Vista Bela”, lugar onde consagrou uma ermida à invocação de Nossa Senhora dos Prazeres. No 16 de Janeiro de 1590, ambos os cônjuges exigiam em um documento público, assinado pelo notário Miguel Antunes Pereira, que um tal Pascual de Paiva Pedreiro, ou, no seu defeito, os seus herdeiros, lhes pagassem três mil réis anuais de foro para mantimento da dita propriedade. Com base neste mesmo documento, sabe-se que Tristão Gomes de Castro possuia quanto menos um criado de nome António Pinto, o qual esteve presente como testemunha neste instrumento de obrigação.
Três anos depois, o nosso protagonista sofreria na carne as terríveis consequências do incêndio que devastou a ilha da Madeira a 26 de Julho de 1593, segundo relata uma miscelânea manuscrita conservada na Biblioteca Nacional de Lisboa:

 

“[No] dia da gloriosa S.ta Ana (…), entre as onze & as doze horas da noite veyo hũ rayo do Ceo, que tinha aparecido na Ilha havia quinze dias, o qual rayo deu em uma das melhores & mais ricas casas que na cidade havia, que heraõ de Tristaõ Gomes de Castro, & dentro em quatro horas se queimaraõ cento e cincoenta & quatro moradas de cazas, as melhores & mais principaes de toda a cidade, onde se queimaraõ mais de cinco mil pães de assucar & muito infinito fato: & antes de soceder este fogo, ouve vinte & quatro horas de taõ grandissimo fogo de calma do Ceo, ventando muito rijo vento Leste, que naõ havia pessoa viva que dentro destas vinte & quatro horas sahise de casa, nem abrise janela, nem se podia soffrer dentro das casas, nem se podia nestas estar por ser o ar taõ quente, que tudo era cuidarem que pereciaõ, & o vento era tal que parecia queimava os ossos, cousa que jamais os homens viraõ nestas partes. Neste tempo das vinte & quatro horas se estima a perda que trouxe nas vinhas em duzentos mil cruzados, porque muitas ficaram vendimadas, & ficou tudo taõ abrazado & de tal maneira que, tomadas nas maõs as folhas, se lhes faziaõ como cinzas, cousa de grande admiraçaõ: & ao cabo de pouco tempo sucedeo este fogo, que foi taõ forçoso & furioso que naõ houve braço humano q o podesse aplacar, com grandes receyos de toda a Ilha se abrazar, & para mayor admiraçaõ chegou o fogo ate a fortaleza, onde estavaõ trezentos quintaes de polvora, & saltando na fortaleza onde nenhũ remedio tinha a cidade & gente della senaõ ficar tudo abrazado & asolado, prouve á Miz.ª devina q com muita presteza se apagou & com grande medo estivemos toda aquella noyte com m.tas guardas & arteficios de agua que se fizeraõ para se apagar o fogo, se tornase á fortaleza, de modo que naõ houve q.m deixase de despejar de sua casa para muito longe do fogo, & p.ª com mais espanto se considerar a ordem & modo que o fogo teve em abrazar dentro em quatro horas o que abrazou salpicava as casas que lhe parecia, porque abrazou algumas que estavaõ meya legoa de outras, deixando o fogo outras que ao deredor & perto estavaõ, que foi uma das mais temerosas cousas q até aquelle tempo aconteceo. Fica a Ilha de todo o ponto perdida, & de tal força que para tarde se restaurará. Parece castigo de pecador, & por muita Miz.ª devina que por aqui acabe, & não vá avante, como merecemos”. 

 

De acordo com os dados oferecidos pelo Centro de Estudos de História do Atlântico, após a desaparição de várias capelas de Nossa Senhora dos Prazeres propriedade dos Gomes de Castro, como consequência provavelmente da catástrofe antes narrada, Tristão voltou a fundar no 1610, na sua quinta de Bela Vista, uma nova ermida sob a invocação da mesma virgem, em cujo frontispício ordenou gravar o dístico seguinte:

 

Haec monumenta Tibi, Tristanus, Virgo, sacravit;
ampla sibi, meritis illa minora facis . 

 

Uns anos mais tarde, Tristão Gomes de Castro faleceria “em os 14 dias do mes de março” no seu Funchal natal quando tinha 71 anos de idade, como assim se contempla no Livro da Sé de Funchal, nº 72, fls. 139-139v, onde, após ter redigido o seu testamento em favor da sua filha Guiomar de Andrada, expressava o seu desejo de ser enterrado na sua capela da igreja de São Francisco. Eis as palavras que figuram no registo:

 

Em os 14 dias do mês de março de 611 faleceo nesta cidade Tristão Gomes de Castro. Fez testamento, o qual foi feito e aprovado por João Luís Botelho, notário. Mandou-se enterrar em São Francisco, na sua capela. Deixa a sua terça à sua filha dona Guiomar, sem obrigação alguna, a qual faz sua testamenteira, e a seu filho João Gomes de Castro.
Manda que lhe digam duas missas no altar das almas de São Francisco, e duas no altar de Jesús da Sé.
Item, manda que na sua capela da Concepção lhe digam duas missas; manda que lhe façam três ofícios de nove lições, dous em São Francisco e hum na Sé, aonde é freguês, cada hum ofertado com hum saco de trigo, hum barril de vinho e hum carneiro.

 

Uma vez morto, e segundo opinião de Henriques de Noronha, Tristão não só seria lembrado como um cavaleiro “discreto e erudito”, “como se vê dos muitos livros que compôs”, senão também como “singular poeta latino”, tendo deixado algumas obras manuscritas tanto em verso como em prosa, a maioria delas histórias de cavalarias, “ao uso daqueles tempos mais antigos, das quais ainda alcançamos ver algũas”.

 

ÁRVORE GENEALÓGICA

MANUSCRITOS

AC 1-2. LISBOA. ANTT: MS. DA LIVRARIA, 686

PARATEXTOS FRONTISPÍCIO

 

 

Segunda Parte do príncipe Leomundo de Grécia, e de outros muitos príncipes e cavaleiros, e grandes acontecimentos do poderoso emperador Leomarte de Grécia e restauração da grande e famosa cidade de Constantinopla, segundo o escreveo na língoa grega o grande sabedor Arideo, na latina o excelente poeta Plotino, na portuguesa Tristão Guomes de Castro.

 

PARATEXTOS PRÓLOGOS

Não se conserva. 

PARATEXTOS DEDICATÓRIA

De acordo com Diogo Barbosa Machado, a obra teria sido dedicada a D. Francisca de Aragão. 

PARATEXTOS CÓLOFON

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[177v] Fim do Segundo Livro da Argonáutica da Cavalaria, que trata da
grande história e famosos feitos do invictíssimo e assinalado príncipe
Leomundo de Grécia [e das] altas e estranhas avinturas que acabou,
com as de outros príncipes e cavaleiros que no seu tempo
melitaram e pelo mundo as andaram buscando.

 

COMPOSIÇÕES POÉTICAS

 

PARTE I

 

[110r] Cansão

Amor, que ao entendimento,
posto que como um sol embravecido,
penetra o pençamento,
que te vês em teus abismos escondido,
se juntamente foras entendido
da causa donde vens gentil e feito
bem como própio efeito,
sempre foras querido, sempre amado
e nunqua aborresido e despresado.

Tu só em várias formas
a teus altos intentos mui conformes
um amante trasformas,
porque do teu poder o mundo informes
em valeroso coração não dormes,
mas s´estiveras neste seu despeito
e vira o meu aberto,
que segredos tão altos se deriam
que eles ambos somente entenderiam!

Um amoroso exseso
com voz de ferro e língoa de diamante,
como quando mui polido e tremante
mostra por tua mão no forte escrito
seu amor infinito,
tua muda eloquência te declara
e no silêncio tens a voz mais clara.

Amor, aquele peito
inframa de amorossa piedade,
que asim me tem sogeito
o coração, a vida, a liberdade.
Então se saberá com mais verdade
a desta minha fé e deste estremo,
que, posto que contigo nada temo,
temo daquela vista um desengano
de que a morte seja piquena no dano.

 

 

[113r/b] Obedeçamos a Amor,
pençamentos escondidos,
posto que em minha ventura
até de Amor desconfio.

Ele me manda que cante
ao som de tantos sospiros,
tomando por instromentos
o tormento de que vivo.

Que hei-de cantar a este som
aonde não sou conhecido
nem pelo bem que procuro
nem pelo mal que imagino.

Que grande desatino,
que temo aquele bem que vou seguindo!

[113v/a] Fermosíssima senhora,
não deis a meu mal ouvidos,
que sinto que hei-de perder-me
se souberdes o que sinto.

Deixai-me ser o que sou,
triste, rústico, atrevido,
que se me tornasse grande,
temera grandes perigos.

Não mais acabe-ce o canto
que vejo destes princípios
outro fim tão diferente
como o da sorte em que vivo.

Que grande desatino,
que temo aquele bem que vou seguindo!

 

 

[125v] Esperança tão fermossa
e d´estremos tão suaves,
por ser guardada entre as aves,
a terão por perigosa.

 

 

PARTE II

 

[6r] Quem está metida ou sepultada
debaixo desta pedra forte e dura?
Um corpo afurtunado, ũa figura
da morte e do amor aqui botada.

Como foi no mundo já chamada
esta infelice creatura? Bricélia.
E o da triste sem-vintura
só de amores morta e acabada!

Que Parca foi aquela que cortou
de ũa dama tal a doce vida?
Um príncipe tão grande e valerozo

que só a saudade sua a matou,
e tem por isso a alma internecida,
não porque é mui alto e generozo.

 

 

[20v] Neste preságio tão forte
trago a alma escurecida
sem ter esperança na vida
nem menos remédio na morte.

 

[20v] Nem assim se satisfaz
por me dar maior tormento
nem menos ver o que sustento
na crueldade que faz.

 

 

[37r] Olhai, Amor, o que ordena
para maior tormento da vida:
que me tirem o coração
e o queime a Opinião,
e quer que ainda assim viva.

 

 

[67v] Se como tive a sorte e a ventura,
senhora, de ser vosso fora certo
o prémio deste bem, que mor acerto
que ser captivo desa fermosura?

Mas como de ũa pedra seca e dura
tendes sempre o peito descuberto,
cuido que é um grave desconcerto
com que o amor me ata e asegura.

Rigor que dentro na alma mais se sente
que todo quanto mal tem recebido
de vossa violência e cruesa,

por quão áspera, impurtuna e duramente
tratais a este vosso tão vencido
dessa tão estranha gentileza.

 

 

[68v] Era um alegre, claro,
fermoso e alvo dia
[69r] em que a délia fortaleza
com mor força nele ardia,
quando de rozas e flores
toda a terra se vestia
e o vento com suavidade
por elas todas feria,
quando a pegácea fonte
brandamente ao mar corria
e as alteradas ondas,
de bravas, manças fazia;
quando o grão Príncipe Grego
alma e vida consumia
em dolorosos suspiros,
porque de Espanha partia
a só comprir o desterro
de quem desterrar o podia,
mas temendo o ver-se absente
de quem mais que a si queria,
com lágrimas saídas da alma
se aqueixava e a si disia:

«Pois querem os Fados,
deixai-me acabar
aqui neste mar,
tristesa e cuidado;
aqui nestas ágoas
deixemos a vida,
[69v] pois é bem perdida,
tão chea de mágoas;
aqui pençamentos,
fadiga e dores,
aqui, meus amores,
dai fim ao tormento;
aqui no presente
sintamos, Amor,
o cruel disfavor
do mal de absente».

E como esta lacrimosa
endecha em terra caía,
trespassada alma e vida
em tristesa e agonia.

 

 

[70r] Que tiro foi já tão desordenado
o com que Amor cruel me asertaste?
Que glória, que vitória, que estremado
triunfo o que hoje alcansaste?
Que feito tão famoso e levantado
de um pobre roubar o que levaste,
deixando-me de todo consumido
e por ti, ó Rocilea, tão perdido?

Por ti, por cuja fé e alta sorte
na frágoa imortal do sofrimento,
[70v] batendo está na vida a cruel morte
sem já poder mudar meu pensamento.
Por ti, ó Rocilea, puro norte
de meu imensíssimo tormento,
por ti, ó lus angélica, formada
daquele por quem foste retratada,

por ti, em cujo fogo a penetrante
ceta o duro Amor está forjando
pera com mais forte e exorbitante
força a minha alma ir trespassando,
pois vê, ó Rocilea, se bastante
será a quem por ti está passando
pena tão cruel sem ter vintura,
estado, nem valor a esta figura.

 

 

[77r] Alva e branca sois, senhora,
e pela mesma razão
[77v] vos trago no coração.

De vós nasce todo o bem
quanto a vida alcansa.
Em vós minha alma descansa,
porque sois todo o seu bem,
pelo que vos trás e tem
posta com tanta razão
lá dentro no coração.

Vós sois só, alta princeza,
meu bem, praser e alegria;
vós só a que cada dia
me tira a alma de tristeza;
vós a que nesta largueza
estais com tanta razão
dentro no meu coração;

vós a que fas padecer
ao vosso pastor Linterno
tal tormento que o do Inferno
já maior não pode ser;
vós só a que pode ver
com quanta e justa razão
estais no meu coração.

 

 

[82r] Quem diz que Amor abraza o coração
por ser fero, cruel e deshumano,
deve ser de leve opinião.

Castiga como justo tal engano
ao néscio, torpe, vil, ao insensato,
ao duro, regurozo e pouco humano;

castiga ao invaidor e pouco grato,
a hum cabelo crespo ondado d´ouro
o que ao Amor se mostra sempre ingrato;

castiga o de Apolo verde louro,
que com tal cautela e sutileza
já nunca quis largar o seu tizouro;

castiga ao que não teme a fortaleza
de quem alma e vida em fogo acende
nem sabe uzar consigo gentileza;

[82v] castiga a quem não ata nem se prende
de uns olhos de esmeralda ou ser fermozo
ou de um peito cristalino se defende;

castiga a quem não toma por repouzo
tormentos, dores, penas ou tristezas,
ou nelas se não mostram generozos;

castiga vãos despresos e cruezas;
castiga um peito brando enrequecido
de lágrimas, suspiros e nobrezas;

castiga quem não é muito perdido
de amores e por eles não espera
de ser do mesmo Amor favorecido;

castiga toda a dama ou donzela
tão chea de altiveza fraudelenta
que de todo a quem não serve desespera;

castiga toda aquela que, izenta,
ao Amor se quer mostrar seca e dura,
ou contra o ser de ũa alma violenta.

Assim que é só Amor ũa tenrura,
sempre aspira o bem e dá vitória
a toda fé leal, limpa e pura

que mais cuida longe estar de sua glória.

 

 

[90r] Aqui descança em terra já tornado
o grão príncipe da Grécia Leomundo.
Aqui metido está no mais profundo
desta rija pedra sepultado.

Morreo por Rocilea, cujo estado
foi tão duro, cruel e furibundo
que sobre apartar-se assi do mundo
sempre foi por ela atormentado.

Ainda que aqui deu fim à vida
por esta cereníssima Princeza
de toda a perigrina fermosura,

mágoa foi certo só nascida
de sua estranhíssima crueza
e assi ordenada da vintura.

 

 

[91r] Que queres mais de mim, ó cruel Amor,
que pôr-me neste estado tão perdido?
Que mais feros tormentos, que maior dor
me podes já dar, falso fementido?
É este o prémio, dise, traidor,
do muito que me tinhas prometido,

negando na vitória tão devida
a quem por vós, senhora, perde a vida?
Cuidei que em só amar-vos consestia
o bem que recebi de meus temores,
mas vejo que ele mesmo é a guia
de tristes penas, claros disfavores.
Por ele entregarei a terra fria
e por vossos ducíssimos amores

um corpo de ser vosso tão contente
quantos por vós mouro discontente.

Sustive-me até gora trabalhando
de não se publicar vossa crueza,
mas não me posso já ir enganando
nem menos incubrir essa dureza.
Tormentos tão cruéis estão passando
por essa estranhíssima bilesa

que só descansar pode na morte
quem passa como eu um mal tão forte.

 

 

[92r] De fogo sou composto em fogo vivo,
em fogo se tornou meu pensamento,
fogo tão cruel e tão esquivo

que já não tenho em fogo sofrimento,
[92v] assi que tudo queimo em fogo vivo.
Alma, coração cujo tormento

tinha por tão forte, estranho e duro,
que do fogo ser na morte me aseguro…

 

 

[152r] No outro que é mais supremo
só o divino se assenta,
justa e clara difirença
de um ao outro estremo.

 

 

[157r] Não vos pareça sem fruito
o trabalho do Cuidado,
ainda que vos custe muito,
sendo o prémio tão dobrado.

 

 

[158v] Se me caístes por sorte,
como posso ser vencido
nem da Vida nem da Morte,
sendo por vós só perdido?

 

CARTAS

PARTE I

 

[90r/b] À princeza Rocilea de Espanha, senhora da fermosura, saúde:

Atrevimentos nascidos de ũa fé tão pura quando não tenho certo o perdão, ao menos tem-no merecido e, se por declarados são ofença, por efeitos de Amor são obrigasõis. Adorar-vos será culpa, porém, deixar de querer-vos, emposível, e ainda que servir-vos seja maior galardão de meos estremos, por satisfação deles me haveis de conseder, senhora, o nome de vosso cavaleiro que, posto que se não mereça, nunca tão bem cuido que não haverá outrem que o mereça mais.

 

 

[138r/b] Carta
[138v/a] Luitolfo, príncipe d´Alemanha, [a] Medroapa, Serenísima Rainha d´Espanha, saúde:

Para que acabe de tomar a vingança dezejada contra o império dos gregos só esta todas as horas, esperando ser nela jurada por sua real princeza, a exelente Rocilea, tua filha, nesta cidade que tomei e tirei aos príncipes gregos, que a tinham, com morte e destruição da maior parte de seus defençores. E porque a Rugilando, duque de Lempur, que é o que esta leva, remeto o mais que pudera escrever, espero com tua soberana vinda acabar de sastifazer aqueles antigos agravos que os prínçipes d´Espanha dos de Grécia têm recebido para com a dívida desta obrigação alcansar o que por ti e pela soberana Princeza, tua filha, está jurado e prometido.

 

 

PARTE II

 

[36v] Carta:

Nos trabalhos e graves perigos se conhecem mais os espíritos grandes e generosos, e nos encontrados da adversa e mudável Furtuna os amigos, e porque ambos cuido que temos bem comprido com esta obrigação, queria que somente entendésseis, alto e poderoso príncipe, que enquanto o vosso vaçalo Arideo tiver vida, não faltará em vosso serviço em tudo o que vos comprir e acontecer, pelo que deveis viver sem receo dos imigos que com artes tão sutis e cheas de tanto engano e indústria precuram e andam buscando vosso dano, que pela Providência Devina em si mesmo hão-de ver. Essas armas podeis vestir, ainda que negras e tristes, e feitas para o tempo em que vos tomam, que espero voltar cedo a um estado mais alegre e contente do presente, porque nem a tormenta dura tanto espaço que nele se acabe o mundo, nem espírito que com fortalesa a sustente e encontre que dele não seja vencida, pois é certo ser a variedade de Furtuna tão pouco durável quanto o que está próspero e sempre dele encontrado e perseguido.

 

 

[80r] Carta:

Amaltea, infante de Cerdenha, à soberana Rocilea, princeza das estendidas Espanhas, saúde:

Se na presente necessidade e engano em que estás metida a puderes receber, porque saberás, poderoza e alta princeza, que o que presente tens afigurado em Linterno não é Linterno nem pastor nem nunca o foi; é o Príncipe grego e o Cavaleiro do Ardente Resplandor, se algũa ora o conheceste ou o ouviste nomear, que com este entremês e figura em que se muda pela força desse anel que consigo trás te quer roubar e levar ao seu império de Grécia, e o filho de quem da vida presente desterrou teu pai e irmão e filho, de quem em arras pedes a sua cabeça e o que a todos os reinos de Espanha quer defraudar de sua natural princeza pera com mais direito ficar deles senhor; e finalmente o que quer incubrir debaixo do falso nome daquele cruel Amor que publica ter-te, te quer desterrar de teu natural senhorio, de tua honra, de tua limpeza e fama.
Se com estas condições está bem entregar-se a [80v] Sereníssima Princeza das Espanhas ao sanguinolento herdeiro do enganoso e pérfido grego, presente o tens pera que conheças na força deste incuberto segredo o que milhor te pode estar segredo, e segundo o que comprir a tua Real Magestade assim segurar a satisfação e vingança da morte dos teus, ou com real entrega de tua soberana pessoa a de seus fraudulentos e deshonestos amores com que tão enganada te trás.

 

 

[94v] À Princeza d´Espanha, minha senhora.

Carta:

Quem vai tão entregue a essa obstinada ingratidão, por grande que seja a fineza de seus leais serviços, mal pode sustentar a vida na dureza de tais encontros e apertada condição. E como isto é assim, não quero mais da Furtuna em galardão desta minha fé e verdade com que vos sirvo que vir dela a conhecer quando a dureza com que até gora me tratastes vos conturbar e levar, apezar de me terdes feito tanto mal, sem aproveitar o arrependimento que disso haveis de ter. E se até disto fordes esquassa, não no sejais de traserdes algum hora à memória quão descontente vai Linterno acabar a vida pelos inculpáveis pensamentos do Príncipe de Grécia, a quem sempre a troco do que vos quer tanto o deixastes e aborresestes. Premita Deus não vos seja sua morte pedida, porque nem com isso poderá ser aliviada ũa alma que tão saudoza vai de quem a assi chegou a um tão triste e mortal fim.

 

 

[123v] Carta:

Se sem custo nem tanto sangue dos nossos quizesses e premetisses, sereníssimo e alto príncipe, que acabássemos e concluíssimos de tua pessoa à minha a difirença que ambos temos e que com tanto trabalho à Grécia me fez vir, seria pera mim ũa grande mercê de Deus e a ti ũa não pequena honra por muita que até qui tenhas ganhada e alcansada, e às nossas gentes um mui fermoso espectáculo vendo que com a morte de um de seus capitãis se acabam e consumem todos os perigos e mortes que em ũa tão prelixa e comprida guerra não podem deixar de passar e ter. Com muito gosto será de todos olhada esta vitória que com tanta glória e louvor podemos já alcansar, em que não somente se satisfazem todas as perdas e [124r] danos que em Grécia hoje são feitas, mas aquelas injustas mortes que em Samostrácia se deram aos famozos príncipes de Espanha: tu, não vendo a teus imigos parentes e vaçalos acabar e perecer a poder de ferro e fogo dos poderozos exércitos alemãis; eu, desempenhando a palavra que à Rainha de Espanha tenho dada de lhe entregar tua cabeça; tu, vingando aquelas antigas afrontas que Constantinopla em seu esbulho recebeo; eu, livrando-me daqueles importunos brados de que convencido pela alhea justiça passei em Grécia.
Asi que se por estes e por outros muitos justos respeitos quiseres, alto e poderozo príncipe, aventurar a ũa particular batalha, ou entre outros tantos alcansada, pera ela te desafio diante dos muros dessa cidade, pera que d´hoje a vinte dias ambos em campo sarrado e seguro a façamos e recebamos da inconstante e mudável Furtuna a conclusão de nossos devidos prémios, pera que o que receber fique dela tão izento como confiado em todos os outros seus maos incertos e bons sucessos.

 

 

[125r] Carta:

Se do ânimo e espírito escandalizado se podem esperar graças, eu as dou não a quem com tanta injustiça e leves meios moveo a indignação e injúria a todo o Estado de Grécia, mas àquela divina e imensa sabedoria que ordenou traser as cousas a milhor rezão e fim do que tiverão princípio, pera que de todo se acabe de concluir e arrematar a crueldade desta guerra nos que dela foram princípio e deram azo a esta furtuna, persuadindo e assendendo os ânimos de uns homens pacientíssimos a ũas tão novas injúrias que nem já as podem desimular nem sofrer a cólera que a lembrança de tantos males lhes poem diante, e que até agora retive no magoado peito. Mas já que vejo [125v] aberto o caminho ao que tanto desejei, eu asseito a batalha assi e pela ordem que pedis, e no tempo limitado me acharás diante dos muros desta nossa cidade pera que em seu campo sempre vencedor de seus imigos, a vista de nossas gentes e exércitos receba um do outro o prémio de suas cortas e duvidosas esperanças.

 

 

[144v] Ser adversa e dura Furtuna da sem-vintura Bricélia diante do grão Príncipe grego algum tempo pode ser conhecida, não quero mor satisfação de meus males nem dos serviços que em nome de Felindo lhe tenho feito e terei por favorecida aquela fé que com tanta lealdade entreguei àquele amor por quem, recebendo a morte, vou estranhamente contente tomar o prémio dos trabalhos que por ti passei. Dos quais e desta pureza do amor e força do encantamento de Eritrea, pois d´outro modo ser não pudera, nasceo esse príncipe, filho teu, a quem por zelo criei e fis o que devia a teu serviço. Peço-te que mo faças grande em galardão de nunca faltar esta fé por quem mouro, porque cuido que ele to merecerá, e se vires ser injusta esta esperança com que vou, lembra-te que to pede a tua cativa Bricélia por benefício de sua constante firmeza.

 

PROFECIAS

 

[99r/a] Estas são as armas de Frociano, príncipe de Cerdenha, que pela força de ũa contrária fortuna, quando cuidou alcansar um quieto repouso na vida achou a morte que, sobre os amores da fermosa Rocilea, princeza do reino d´Espanha, lhe deu o Príncipe de Grécia. Ninguém as tome nem tire deste lugar porque estão guardadas para o cavaleiro que no estremo de sua maior tristeza [99r/b] terá poder para com elas livrar a maior imiga que tem.

 

 

[132r/a] Padecerá o descuberto Príncipe de Grécia, mudado nas armas do encuberto Cavaleiro do Ardente Resplandor, não somente o engano com que d´Espanha queria roubar sua Sereníssima Princeza, mas a morte sobre seus amores dada ao valerosso príncipe de Cerdenha, Frociano, tormento em que estará até o tempo que a própia e natural princeza Rocilea, levada de seu natural temor, verdadeiramente aparte o cruel venablo de seu amorosso e ferido peito para com sua própia morte nele dada lhe reserve do que nas mãos dos cruéis gigantes cuida que pode reseber.

 

AC2 ÉVORA. BP: MS. 208